Tudo o que acontece antes da fotografia

Gabi Lisboa fala sobre o que faz a fotografia analógica permanecer viva em meio a um mundo digital e imediatista

Fotos: Gabi Lisboa

O gesto da fotografia nunca foi tão simples quanto é hoje. Basta apontar o celular e dar um clique e, assim, acumulamos milhares de fotos em nossa galeria. Ao mesmo tempo que isso democratizou o acesso à fotografia, inaugurou também a era da abundância digital, em que muitas vezes fazemos cliques que nunca voltaremos sequer a olhar, imagens que não verão “a luz do sol”. O processo digital da fotografia, principalmente através do celular, nos fez relativizar esse gesto e, muitas vezes, tratar a foto como algo meramente casual. Não há nada de errado nisso, mas, em meio a toda essa abundância, surgiu um movimento entre aqueles que se interessam pela fotografia como arte, e não apenas como uma ferramenta cotidiana.

A fotografia analógica nunca deixou de existir. Com o surgimento das câmeras digitais, das cybershots e, posteriormente, dos celulares com câmera integrada, aquilo que antes era a única forma de fotografar passou a ocupar um espaço cada vez menor. Ainda assim, nunca foi plenamente abandonado. Muitos fotógrafos, profissionais e amadores, continuaram fotografando em filme porque esse processo despertava algo diferente da facilidade do digital. Hoje, em meio à praticidade cotidiana da fotografia, o movimento analógico parece crescer ainda mais, numa busca por algo mais artesanal e metódico do que aquilo que encontramos nas fotos digitais dos dias de hoje.

Gabi Lisboa, fotógrafa

Para falar sobre fotografia analógica, conversamos com Gabi Lisboa, fotógrafa que há tempos chama nossa atenção pelo trabalho desenvolvido com a película em um cenário muito digital. Ela já fotografou artistas nacionais como Jão, Marina Sena, Kid Abelha, e internacionais como Turnstille, HorseGiirl, e um registro único da Lana Del Rey, experiência que, segundo ela, trouxe “um nível de serotonina que nunca mais foi visto no seu sistema nervoso”. Para ela, a experiência de fotografar em película surgiu de maneira muito natural. Enquanto, na geração atual, muitos descobrem a fotografia analógica apenas depois de se arriscar no caminho digital, Gabi fez o caminho inverso: começou na analógica e, talvez, tenha sido justamente isso que ajudou a construir seu olhar único no mercado. “Eu iniciei na fotografia pela instantânea, passei brevemente pela digital na época da faculdade de moda, e logo me encontrei na analógica, foi onde eu aprendi a fotografar de fato e criei meu caminho estético a partir disso, podendo tanto criar pro meu pessoal quanto pro trabalho. Depois realmente veio o digital, principalmente por uma necessidade profissional e de encaixe no mercado, mas particularmente não me apetece tanto”, diz.

Ela enxerga o movimento crescente atual como uma vontade de construir uma relação mais física e processual com as imagens, principalmente para quem trabalha ou tem algum tipo de relação com o audiovisual: “O analógico traz essa relação de volta, existe um processo, uma escolha, uma espera e, principalmente, existe um objeto no final. Seja um negativo, uma ampliação, ou uma Polaroid, tudo você consegue segurar na mão, mesmo que aquilo vá pro digital de alguma forma, ele existe fora de lá. Acho que tem algo muito humano nessa vontade de voltar a guardar as coisas de uma forma mais concreta.”

Além da necessidade humana de ter algum tipo de contato físico com aquilo que produz, a fotografia analógica também está profundamente ligada ao lugar da memória. Gabi nos contou, por exemplo, que se conectou com as fotos em filme por ter recebido de sua avó essa herança visual. Para celebrar essa relação tão humana com aquilo que permanece, ela realizou uma exposição de polaroids, para nos lembrar da importância de registrar e lembrar através desse gesto: “Acredito que a memória física é a coisa mais importante que temos.”

Então, muito além da estética, do grão e do visual nostálgico, talvez a resposta para o crescimento da fotografia analógica esteja em um lugar mais sentimental. Em uma necessidade intrínseca do ser humano de tocar, sentir, ver e lembrar aquilo que ama e aquilo que chama sua atenção. De transformar um simples clique em uma espera e, tempos depois, poder retornar àquele exato momento em que ele foi vivido.

Esse movimento analógico não tem acontecido somente na fotografia, mas também no audiovisual, arte com a qual Gabi também tem conexão. De diferentes formas, da imagem fixa à imagem em movimento, os motivos para optar pela película encontram caminhos muito parecidos.

No audiovisual, essa sensação ainda se expande pelo caráter coletivo dessa arte. A escolha por filmar de forma analógica afeta todo um set de filmagem. “Recentemente dirigi um projeto pela primeira vez gravado em 16mm, até então só tinha rodado com super 8, e acho interessante o que ela provoca no set. Quando você sabe que existe uma quantidade limitada de película rodando, a relação com o take muda. Existe uma concentração diferente, você pensa mais antes de rodar, e de certa forma, na minha perspectiva, uma leveza de que muito provavelmente tudo que tá sendo rodado já está lindo”, conta ela.

Ainda assim, optar pelo analógico não deve ser uma tentativa de salvar um projeto ou simplesmente torná-lo mais bonito. A película carrega uma estética própria, mas sua escolha não pode se resumir a ela. Existe um processo por trás, custos, limitações e dificuldades que, principalmente no cinema, tornam essa decisão mais complexa. Filmar em película no Brasil ainda é caro e complicado, desde a realização até a revelação. Por isso, como afirma Gabi, essa escolha precisa fazer sentido para cada projeto, indo além da vontade de alcançar uma determinada aparência. “Acho que a película tem uma textura e uma sensação que é muito difícil de reproduzir completamente. É a maneira como ela responde à luz, às cores, à pele e até ao movimento. […] Ao mesmo tempo, eu não acho que a película automaticamente deixe um filme melhor. Para mim ela precisa fazer sentido dentro da linguagem daquele projeto. Quando faz, ela deixa de ser só uma estética e passa a fazer parte da narrativa”, comenta.

E, mesmo com a internet nos dando inúmeras possibilidades de replicar o efeito da foto ou do vídeo analógico, aquilo que é feito fisicamente, em película, ainda tem um valor incomparável. A ausência de controle também faz parte desse valor. Ela cria uma relação diferente com a fotografia, que exige lidar com o imprevisível, respeitar o tempo e aceitar que nem tudo pode ser corrigido ou refeito.

“Dá para reproduzir grão, cor, contraste, ótica, vazamento de luz, mas é algo puramente estético e totalmente controlável. No analógico o processo interfere na imagem, não poder ver a foto imediatamente, não poder apagar e fazer de novo infinitas vezes, não saber exatamente como aquele filme vai responder à luz, não ter certeza que o químico usado para revelação vai trazer exatamente as cores que você espera daquele filme, tudo isso influencia as escolhas que você faz antes da foto.”

Ou seja: o resultado estético pode até chegar muito perto do que encontramos no analógico, mas existe uma distância entre reproduzir uma aparência e recriar tudo o que existe por trás dela. Por mais que um aplicativo consiga simular a estética, dificilmente será capaz de reproduzir a espera, a incerteza e tudo aquilo que acontece entre o momento do clique e a imagem finalmente existir. Isso não significa que esse tipo de efeito seja ruim ou não possa ser utilizado. Como comenta Gabi, ele também democratiza o acesso a esse tipo de estética. “Eles [os efeitos] democratizam um pouco o acesso a esse visual. Fotografar em filme hoje é caro, desde a compra do rolo até a revelação e digitalização, então acho legal que alguém possa experimentar essa linguagem mesmo sem ter acesso a todo esse processo. Eu não vejo essas ferramentas como algo que diminui o valor do analógico. Pelo contrário, acho que mostram o quanto essa estética continua influenciando a maneira como a gente produz e consome imagens. E acho interessante perceber que, cada vez mais, as pessoas chegam pela estética e acabam buscando também a experiência por trás dela.”

É assim que o digital e o analógico continuam conversando. Mesmo através de um celular, artistas que ainda não têm a possibilidade de fotografar profissionalmente podem se conectar com essa vontade, desenvolver o próprio olhar e se aproximar da estética analógica. E o que começa em um simples aplicativo na tela pode, muitas vezes, despertar o interesse pela experiência que existe por trás dela, por um processo muito mais físico e conectado à necessidade humana de sentir.

Para quem se interessa pela fotografia em película e tem vontade de começar, Gabi deixa um conselho simples: começar fotografando. “Sem ficar esperando ter a câmera X ou entender tudo tecnicamente, eu não sabia nada, tinha um sonho e uma lente mofada. Eu começaria com uma câmera simples, uma 100% manual para entender o funcionamento aos poucos, um filme relativamente fácil de encontrar, tem muito filme rebobinado por aí que é mais acessível, e fotografaria coisas próximas, amigos, família, a própria rotina, porque é onde seu olho tá mais acostumado e tem um olhar mais carinhoso, achar sua linguagem nos seus arredores é um caminho interessante. E errar bastante também, tem muita coisa que eu aprendi fazendo foto ruim, errando exposição, perdendo filme. Depois você entende a técnica, mas acho importante não deixar a técnica tirar a espontaneidade. No fim, uma fotografia perfeita tecnicamente não necessariamente é uma fotografia que faz você sentir alguma coisa.”

Ou seja: no fim, a experiência da fotografia passa por muitos lugares, mas sempre retorna ao lugar do sentir. É sobre memória, sobre as pessoas que amamos, as experiências que nos brilham os olhos, a rotina e o dia a dia. Mesmo quando a arte se expande e alcança outros lugares, tende, de alguma forma, a voltar ao seu ponto de origem. A técnica, por si só, não é o que transforma alguém em artista. Existe sempre algo que transborda, algo que, dentro da própria experiência de vida, precisa encontrar uma forma de existir quando já não cabe mais dentro de si.

Fotografia: Gabi Lisboa

Texto: Paola Fernandes