“Esse é o país do exagero”: Caio Mota desafia os limites entre joia, moda e arte
Artista transita entre a joalheria, o figurino e a fotografia para criar esculturas vestíveis e peças que encontram no corpo uma nova forma de existir

O que faz uma joia ser uma joia? Para Caio Mota, a resposta não precisa ser simples. Ao longo de mais de duas décadas trabalhando com adornos, o artista experimentou materiais, técnicas e diferentes maneiras de construir uma peça, até chegar a uma produção que hoje transita entre a joalheria, a moda, o figurino, a fotografia e a performance. Nos últimos dois anos, as esculturas vestíveis, maiores e mais próximas do universo do figurino, ganharam força em seu trabalho e ampliaram ainda mais os limites do que ele entende como adorno.
A relação com esse universo começou muito antes de Mota se dedicar de forma mais concentrada aos metais de joalheria. Durante anos, o couro foi seu principal material, utilizado na criação de bolsas, acessórios e objetos. A mudança para outras matérias e escalas não significou abandonar esse percurso, mas permitir que ele se expandisse. “O que ainda me interessa é justamente descobrir até onde uma joia pode ir. Gosto de experimentar, encontrar uma solução que eu ainda não conhecia e ver uma ideia ganhar corpo”, afirma.
Para continuar criando, ele precisou também rever a própria ideia do que uma joia deveria ser. “Precisei me permitir mudar de escala e romper com a expectativa de que uma joia deva caber em uma definição única”, explica. Hoje, seu trabalho pode aparecer em uma peça menor, em uma máscara, em um adorno de cabeça ou em uma escultura que ocupa uma parte significativa do corpo, sempre mantendo uma relação estreita com a pessoa que irá vestir aquela criação.
Essa liberdade também aparece na maneira como Mota entende a beleza. Suas peças não precisam ser delicadas ou imediatamente reconhecíveis como joias. O artista se interessa pelo contraste entre o brilho de metais como prata e ouro e a estranheza de uma escultura que, à primeira vista, pode parecer pertencer a outro universo. “Gosto das marcas do gesto, da matéria e da construção manual. Uma peça pode ser bruta, irregular e, ainda assim, ter um acabamento muito pensado”, diz.

A intenção não é provocar por provocar, mas criar espaço para que o objeto seja percebido de diferentes maneiras. “Se a peça faz alguém parar, sentir ou questionar o que está vendo, ela já abriu uma possibilidade”, afirma. Sua pesquisa também aproxima uma sensibilidade contemporânea da estética vintage, uma referência pela qual é apaixonado, criando um trabalho que não parece interessado em escolher entre o refinamento da joalheria tradicional e a liberdade das formas experimentais.
A relação de Mota com a imagem ajuda a entender esse caminho. Formado em Fotografia e Imagem, ele também teve a maquiagem entre as áreas que fizeram parte de sua trajetória e passou a enxergar essas experiências como diferentes formas de exercitar o mesmo olhar. “Sempre me interessou pensar na imagem como um todo: luz, rosto, corpo, roupa, movimento e presença”, conta.
Às vezes, a criação começa pela matéria; em outras, pelo corpo que irá recebê-la. A fotografia entra na construção dos ângulos e da composição, enquanto o figurino e a maquiagem ampliam seu olhar para a transformação. A peça completa a imagem quando encontra quem vai usá-la, e é justamente nesse encontro que uma criação pode ganhar um significado diferente daquele imaginado inicialmente.
“Eu crio a peça com uma intenção, mas ela não termina inteiramente nas minhas mãos. Cada pessoa traz sua história, seu corpo, seus gestos e sua forma de ocupar o espaço”, explica. Para ele, essa é uma das partes mais interessantes do trabalho: perceber como o objeto se transforma quando passa a fazer parte do corpo e da presença de outra pessoa.
Essa relação com a construção da imagem aproximou suas criações de diferentes nomes da música e da cultura brasileira. Entre as artistas com quem seu trabalho já se conectou estão Marina Sena, IZA, Elba Ramalho, Daniela Mercury, Gi Lancellotti e Karol Conká. Suas peças também apareceram no filme EQUILIBRIVM, de Anitta.

No caso de Marina Sena, a colaboração ganhou destaque durante a construção visual da era Coisas Naturais. A aproximação aconteceu por meio do stylist Leandro Porto, que já acompanhava o trabalho de Mota e percebeu que sua linguagem poderia conversar com aquele momento da carreira da cantora. Desde então, os dois passaram a desenvolver peças para diferentes situações, entre palcos, clipes e eventos.
Quando existe uma criação exclusiva, o processo começa a partir de uma conversa mais próxima sobre quem vai usar a peça, onde ela será utilizada, quais movimentos precisa permitir e qual imagem deve ajudar a construir. Para Mota, essas necessidades não limitam a criação, mas funcionam como estímulo para encontrar soluções que talvez não surgissem em outro contexto.
“Tenho orgulho de participar dessa construção visual e de ver uma estética mais teatral, tropical e maximalista ganhar tanta presença nos palcos”, afirma. A combinação de cores, formas e proporções também representa uma maneira de se posicionar diante de uma moda que, muitas vezes, privilegia tons neutros e silhuetas discretas. “Em meio a tantos cinzas, beges e pretos, um pouco de excesso faz muito bem! Esse é o país do exagero (risos).”
O exagero, nesse caso, não está necessariamente relacionado ao luxo. A própria ideia de preciosidade é algo que Mota procura deslocar. Embora trabalhe com ouro, prata e pedras preciosas, ele também utiliza metal, madeira, couro, cristais e materiais têxteis. O valor de uma criação, para ele, não pode ser determinado apenas pela matéria-prima.
“Para mim, a preciosidade não está apenas no material ou em um acabamento impecável. Está também no tempo, na ideia, no gesto e na capacidade que uma peça tem de provocar uma reação: arrepiar, surpreender, causar estranheza ou despertar uma lembrança”, afirma.
Essa perspectiva também explica por que seu trabalho não depende de uma definição rígida de luxo. Uma peça pode ter um material tradicionalmente associado à alta joalheria ou partir de algo mais simples, mas o que permanece importante é a relação que ela estabelece com quem a observa ou veste. “O valor de uma criação não se esgota na matéria de que ela é feita. Está na força do que ela expressa e na relação que estabelece com quem a veste ou a observa.”
Por isso, Mota não espera que todas as suas peças sejam imediatamente compreendidas ou aceitas. A reação do público também faz parte da experiência. Admiração, dúvida, estranhamento ou desconforto são possibilidades que ele considera igualmente interessantes. “Não espero que todas agradem a todo mundo. A singularidade também está aí.”

Essa abertura para diferentes interpretações ganha outra dimensão quando uma peça deixa seu ateliê e passa a fazer parte de uma imagem vista por milhares de pessoas. Seja no corpo de uma cantora, em um editorial ou em uma passarela, o objeto passa a pertencer também ao olhar de quem o observa. Mota não tenta controlar completamente esse processo.
“Eu gosto de saber como as pessoas recebem o trabalho, inclusive quando as interpretações são diferentes da minha”, conta. “Uma peça pode despertar admiração, dúvida, desconforto ou estranheza; tudo isso me interessa.” Para ele, quando alguém olha novamente para uma criação e tenta entender o que está vendo, alguma coisa já aconteceu. “Quando alguém olha duas vezes e tenta descobrir o que está vendo, eu já fico curioso com o que aconteceu ali.”
O reconhecimento fora do Brasil é outra etapa desse movimento. O trabalho do artista chegou recentemente ao Runway Vision, com apresentações no Rio de Janeiro e em Paris, depois de já ter aparecido em editoriais internacionais. A circulação amplia o contato com pessoas e contextos diferentes, mas não muda aquilo que permanece como principal motivação de Mota: a curiosidade.
“Ver meu trabalho chegar a outros lugares me mostra que essa linguagem pode criar conexões em contextos muito diferentes”, afirma. “O reconhecimento me dá alegria e abre possibilidades, mas também me dá vontade de seguir experimentando.”
Se existe algo que ainda incomoda o artista depois de tantos anos trabalhando com adornos, é a maneira como o mercado olha para a produção brasileira. Mota observa que trabalhos estrangeiros muitas vezes recebem uma valorização automática, enquanto artistas, técnicas e linguagens desenvolvidos no país ainda poderiam ocupar muito mais espaço.
“Existe uma riqueza enorme de artistas, técnicas e linguagens no Brasil que merece ser vista e usada”, diz.
A crítica também se estende à maneira como as pessoas consomem moda e constroem a própria imagem. Para Mota, existe uma tendência de buscar aquilo que todo mundo já está usando, quando uma peça singular poderia funcionar como uma extensão da personalidade de quem a veste. “Uma peça singular pode dizer muito mais sobre a personalidade de alguém”, afirma.
É nesse ponto que sua visão sobre a joia encontra uma discussão maior sobre liberdade estética. O adorno pode ser uma ferramenta para experimentar outras versões de si mesmo, brincar com a própria imagem e ocupar o espaço de uma maneira diferente. “Gostaria de ver mais pessoas se permitindo brincar com a própria imagem, descobrir artistas novos e usar o vestir como espaço de expressão e ousadia.”
Depois de mais de duas décadas criando acessórios, Mota parece menos interessado em chegar a uma definição definitiva para seu trabalho do que em continuar fazendo perguntas. O que pode ser uma joia? Até onde ela pode crescer? O que acontece quando encontra determinado corpo? Quanto do seu valor está no material e quanto está naquilo que provoca?
Talvez seja justamente por não responder a essas perguntas de maneira fechada que suas peças encontram espaço entre o corpo, a moda, a arte e a imagem. No trabalho de Caio Mota, a joia não precisa escolher um único lugar para existir. E, em um país que ele próprio define como “o país do exagero”, talvez não haja razão para pedir que ela seja discreta.
