João Ferreira: o cotidiano como matéria-prima
Uma carreira sólida, construída com verdade, paixão e, de certa forma, sorrateiramente: é isso o que define a maneira como João Ferreira encontrou seu espaço na música

Uma carreira sólida, construída com verdade, paixão e, de certa forma, sorrateiramente: é isso o que define a maneira como João Ferreira encontrou seu espaço na música, em suas diferentes faces, seja como compositor, instrumentista ou intérprete. Antes de se entender como um artista de profissão, porém, a música já parecia ocupar os espaços ao seu redor. Ela surgiu das referências que o formam, das pessoas que observava e das pequenas situações do cotidiano que, aos poucos, aprendeu a transformar em canções.
Nascido e criado na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, suas raízes mineiras estão completamente entrelaçadas ao artista que é hoje: “Eu acho impossível separar minha formação musical de Minas Gerais. Minas é uma caixa de areia musical. Você cresce ouvindo Lô Borges, Milton, Skank, Pato Fu e uma série de coisas muito diferentes convivendo no mesmo lugar. E o Clube da Esquina, especificamente, é uma referência muito forte para a Daparte e para mim”.
Mais do que uma influência que aparece nas referências ouvidas, a cidade e o estado parecem atravessar também a forma como João se relaciona com o mundo e, consequentemente, com a própria composição. Para ele, essa relação ultrapassa a música: “Acho que não é só uma questão de referências musicais. Tem uma coisa mineira de observar muito, de prestar atenção nas pequenas coisas, nas histórias, nas conversas. Eu acho que isso aparece bastante na minha escrita. Eu gosto muito do cotidiano como matéria-prima.”
É justamente desse olhar atento para aquilo que acontece ao redor que surgiu seu primeiro contato com a composição, ainda muito cedo. Em uma entrevista exclusiva para a Capital, João relembrou a primeira canção que escreveu, Johnny sem Telefone: “Foi uma composição minha e de um colega, chamado Eduardo Julião, de quando a gente tinha uns 12 anos, e veio de uma situação relativamente banal. Era inspirada no namoro de dois colegas da escola. Acho que isso diz bastante sobre como eu comecei a compor, porque não começou com uma vontade de fazer uma grande obra ou de ser compositor”.
A composição surgiu naturalmente, a partir desse mesmo impulso de observar pessoas e situações e transformá-las em letras e melodia. Essa primeira canção, esse primeiro impulso criativo, fez com que o artista começasse a olhar para o mundo de outra forma.

“Foi ali que eu percebi que podia pegar uma ideia, uma frase ou uma situação e transformar em uma canção. Depois disso comecei a ter o hábito de anotar tudo. Até hoje tenho frases em cadernos, livros, notas do celular, papéis pela casa. Às vezes uma frase fica anos esperando uma música.“
Depois que a primeira composição surgiu, a arte nunca deixou de rodear João. Na adolescência, estava sempre envolvido com alguma banda ou projeto musical, ainda sem a pretensão de transformar aquilo em profissão. Ao menos até a Daparte entrar nesse processo.
Formada por Bernardo, Daniel, Juliano, Túlio e João, a Daparte começou em 2015, quando João tinha 17 anos. Foi ele quem pediu para entrar na banda e, a partir dali, as coisas foram acontecendo em um ritmo próprio. Vieram os discos, os shows e as composições, até que aquilo que antes parecia apenas mais um projeto musical começou a assumir outro tamanho em sua vida: “As coisas foram acontecendo, vieram os discos, os shows, as composições e comecei a perceber que aquilo não era só uma atividade paralela.”

Com dez anos de estrada, a banda foi o que impulsionou toda a carreira do artista. Foi ali que ele se descobriu mais a fundo e passou a entender a música também como profissão. “Acho que a Daparte me deu uma escola que eu não teria conseguido ter sozinho. Eu entrei muito novo e, de repente, estava convivendo com quatro outros compositores e músicos, cada um com referências, opiniões e maneiras diferentes de enxergar uma música. Isso te ensina muito sobre composição, mas também sobre escuta, sobre ceder, sobre como defender uma ideia e sobre perceber que às vezes a ideia do outro é melhor que a sua”, diz.
Além de toda a troca com os outros quatro integrantes, foi a banda que apresentou João ao público e, ao mesmo tempo, apresentou o público a João. Com ela, fez os primeiros shows, sentiu a energia de uma plateia e deu o pontapé para o que se tornaria uma vida inteira dedicada à arte. “A Daparte me deu palco. Eu aprendi a tocar, cantar, arranjar, compor dentro de uma banda, mas também aprendi a estar diante das pessoas. Isso moldou muito o músico que eu sou hoje”, relembra.
Com o tempo e com essa troca constante com o público, a relação com o palco também foi mudando. A preocupação inicial daquele menino de 17 anos que pediu para entrar na banda deu lugar a uma confiança maior e a uma compreensão mais madura sobre o lugar do artista diante das pessoas. “No começo existe uma preocupação enorme em acertar. Depois você vai entendendo que o palco também é um lugar de presença, de comunicação e até de erro”, afirma.
E não foi apenas a relação com o palco e com o público que amadureceu ao longo de uma década. A forma como João passou a se relacionar com as próprias canções, dentro ou fora da banda, também se transformou. Ao relembrar os primeiros trabalhos, ele diz reconhecer a energia de jovens que ainda buscavam entender o que fazer e para onde ir. Com o passar dos anos, isso foi sendo substituído por uma identidade mais consolidada como grupo, baseada, principalmente, em fazer o tipo de música que parecesse certo para os integrantes. Em paralelo, ele também foi evoluindo e se moldando como compositor. “Individualmente, acho que fui ficando menos apegado a uma ideia prévia de como uma música deveria ser. Hoje tenho muito mais repertório, tanto musical quanto de vida, e isso acaba entrando na composição”, revela João.
Para ele, composição e interpretação caminham como um casamento. Quando questionado sobre essa relação, João diz que “gosta tanto de cozinhar quanto de comer”. Em sua carreira artística, esses ofícios estão muito bem casados, ainda que também funcionem, e muito bem, separadamente. Ao longo dos anos criando, cantando e tocando, ele aprendeu a incluir um ofício no outro e passou a enxergá-los como partes entrelaçadas de um mesmo processo: “Eu gosto muito de tocar e cantar e essas coisas continuam sendo fundamentais para mim, e também percebi que a composição é o lugar onde consigo juntar todas as outras partes. A guitarra pode ser uma ferramenta para compor, a voz pode ser uma ferramenta para encontrar uma melodia, mas no final a graça é servir à música.”

Desde Johnny sem Telefone, João nunca abandonou o olhar atento que dava rumo às suas letras. Está sempre observando e, dessa observação, vem a escrita, como uma espécie de laboratório natural no qual está constantemente inserido. “Eu escrevo o tempo inteiro. Nem sempre música. Às vezes é uma frase, uma imagem, uma ideia que eu acho interessante. Eu tenho esse hábito de colecionar coisas”, comenta.
Essa observação também alimenta um processo de escrita que nem sempre é linear. Às vezes, João senta para compor e algo nasce dali. Em outros momentos, porém, a música surge quando ele nem está procurando por ela. “Algumas das coisas que mais gosto surgem completamente fora de hora. Você está andando na rua, tomando banho, conversando com alguém e aparece uma frase. Eu gosto dessa sensação de que a música estava meio escondida e você só precisou estar atento para perceber.”
Além desse olhar, João tem outra singularidade em sua maneira de compor: o caráter coletivo. Da mesma forma que escreveu sua primeira canção com um amigo da escola, ele desenvolveu a composição em parceria ao longo de toda a carreira. “Compor sempre foi uma atividade de cooperação pra mim. Eu gosto muito de compor com outras pessoas porque cada pessoa traz uma maneira diferente de pensar. […] Com o tempo, fui entendendo que parceria não é dividir uma música ao meio. É criar uma terceira coisa que não existiria se vocês estivessem separados.”
Essa forma de enxergar a música, sempre aberta ao encontro com o outro, levou João a diferentes lugares. Além da Daparte, que está nos palcos há dez anos, ele também compôs para artistas como Samuel Rosa, Vitor Kley, Lagum e Anavitória. Ceder suas letras para serem interpretadas por outros artistas nunca foi algo difícil para o compositor, que sempre enxergou a arte como algo essencialmente coletivo. Assim, entende que uma música tem muito a ganhar quando alcança outras vozes.
“Eu acho que esse desapego faz parte de ser compositor. Quando você começa a escrever uma música, ela inevitavelmente começa sendo muito sua. Mas quando outra pessoa dá seus inputs criativos e grava, ela passa a ter uma vida diferente. E eu acho isso muito bonito. […] Em vez de pensar “essa música é minha”, eu tento pensar “eu participei da criação dessa música”. Depois ela pode pertencer à história de outra pessoa também.”
Foram justamente essas canções, criadas por João e interpretadas por outros artistas, que o levaram à indicação de Compositor do Ano no Grammy Latino, em 2025. “A Gente Pode Sair Dessa”, por Vitor Kley, “Água-Viva”, por Anavitória, “As Desvantagens de Amar Alguém que Mora Longe”, por Lagum, e “Flores da Rua”, por Samuel Rosa, tornaram João o primeiro brasileiro a ser indicado nessa categoria – e o único até então –.

O mineiro recebeu a indicação com surpresa. Ele conta que, mesmo tendo submetido seu trabalho, não esperava ser indicado, o que tornou ainda mais difícil assimilar o que estava acontecendo: “Foi muito estranho porque era uma coisa muito maior do que qualquer reconhecimento que eu já tivesse recebido. E também tinha o significado de ser o primeiro brasileiro indicado naquela categoria. Eu acho que, depois que a notícia passa, fica menos sobre o prêmio e mais sobre a confirmação de que é possível construir uma carreira como compositor, inclusive escrevendo para outras pessoas. Eu fico muito feliz e muito grato pelas músicas e pelas parcerias que me levaram até ali. […] E acho importante não transformar isso em um ponto final. É uma coisa bonita que aconteceu, mas continuo querendo escrever músicas melhores.”
Além da indicação ao Grammy, outros acontecimentos importantes surgiram na vida do belorizontino justamente por meio dessas parcerias com outros artistas. A partir de criações conjuntas com Ana Caetano, do Anavitória, e integrantes da banda Lagum, nasceu sua segunda banda, que começou em 2025 e chegou aos palcos do Lollapalooza: Foto em Grupo. O artista enxerga o nascimento do grupo como algo natural, resultado desse encontro artístico entre ele, Ana, Pedro e Zani: “A gente já se encontrava para compor e fazer música, inicialmente pensando em abastecer nossos outros projetos. Só que, depois de algumas músicas, começamos a perceber que aquilo que estava surgindo tinha uma identidade muito específica. Era uma coisa que tinha um pouco de cada um, mas ao mesmo tempo não parecia exatamente com nenhum dos nossos projetos anteriores. Aí surgiu a vontade de dar uma vida própria para aquelas músicas.”

Dessa vontade, surgiram onze faixas em um álbum que leva o nome do grupo. Simultaneamente, João continua em sua primeira banda, enquanto busca explorar novos lugares como artista dentro do novo projeto. Para ele, a diferença entre os dois espaços também está no ponto de partida de cada um: “Na Daparte existe uma história muito grande, uma identidade construída durante dez anos. Quando você entra para fazer uma música da Daparte, existe um repertório de referências e expectativas que naturalmente está presente. No Foto em Grupo, a gente começou sem saber exatamente o que era. Então era muito mais fácil experimentar. E como são quatro compositores muito diferentes, as músicas acabam sendo um caldo dessas quatro pessoas. Acho que nossa força está justamente nessa espontaneidade”, diz.
Essa abertura para experimentar e encontrar referências em diferentes lugares também ultrapassa a música. Além de sua própria vida e da percepção sobre o que acontece ao seu redor, João conta que sempre foi muito influenciado pelas outras artes, especialmente pela literatura. “Eu gosto de ler coisas muito diferentes entre si. Já falei de biografias dos Beatles, Fernando Pessoa, Valter Hugo Mãe, Bruno Schulz e também coisas relacionadas a ciência de maneira geral. Quando sinto que estou sem assunto para escrever, às vezes vou procurar justamente a literatura. Eu gosto dessa ideia de que composição não precisa necessariamente nascer de outra música. Pode nascer de um livro, de um filme, de uma conversa, de uma pessoa na rua ou de uma coisa absurda que você viu por cinco segundos”, diz.
Apaixonado pela carreira artística, João diz que não trocaria seu trabalho por nada. Ama os colegas, as tarefas, os horários e até mesmo a ausência de uma rotina fixa. Fazer o que faz, viver de criar e cantar, faz com que ele se sinta a pessoa mais sortuda do mundo, em suas próprias palavras. Ainda assim, quando perguntado sobre outros interesses, conta sobre seu fascínio pela gastronomia: “Se fosse obrigado a fazer outra coisa além de música ou psicologia, eu acho que seria chef… Amo cozinhar e acho a culinária uma arte fascinante. É a única arte que produz um trabalho que em determinado ponto literalmente vira parte de outra pessoa. Existe uma troca primordial, íntima, profunda e filosófica entre o chef e o cliente. Toda a simbologia e memória afetiva que a culinária carrega são lindíssimas”, revela.

E é essa abertura para diferentes referências e possibilidades que parece levar João a explorar novos lugares dentro da arte, aqueles que o fazem encontrar diferentes eus. Quando olha para trás e para as músicas que escreveu ao longo da trajetória, tem dificuldade de escolher uma única canção que o represente, justamente porque sua obra é atravessada por essa variedade. Há, entretanto, uma que ocupa um lugar especial e que o representa mais como compositor do que como intérprete: Guarda-Chuva, da Daparte. “Ela é muito representativa de uma fase em que eu estava descobrindo a minha voz como compositor dentro da Daparte. Eu escrevi quando tinha 17 anos, então consigo olhar para ela hoje quase como um retrato de quem eu era naquele momento. Consigo perceber várias coisinhas que viraram marcas e ferramentas minhas ali. O desenho harmônico e melódico, o conteúdo da letra, o jeito de retratar meus sentimentos… Eu olho pra ela e tenho o mesmo sentimento que tenho quando vejo uma foto da minha adolescência. Me vejo ali mais jovem, com menos barba, mais cabelo e muito mais ingenuidade. Mas me vejo ali”, diz.
É assim que as músicas que têm o nome de João Ferreira formam uma espécie de panorama da vida do artista. Ele começou ainda jovem e descobriu a vida adulta acompanhado de cadernos, anotações, um olhar atento e frases soltas que, em algum momento, se tornariam versos e músicas. Canções que também embalariam outras vidas, histórias, amores e desamores, assim como aqueles que ele viveu.
