Inteligência artificial acelera a comunicação, mas confiança segue como diferencial das marcas, diz especialista
Especialista em branding, Giuliana Tranquilini defende que autenticidade e consistência são essenciais para empresas se destacarem na era da inteligência artificial.

A inteligência artificial deixou de ser uma tendência para se tornar parte da rotina de empresas de todos os portes. Hoje, ferramentas capazes de produzir textos, imagens e vídeos em poucos minutos ajudam desde grandes corporações até pequenos empreendedores a criar campanhas, organizar estratégias e manter uma presença constante nas redes sociais. Se, por um lado, a tecnologia reduziu custos e acelerou processos, por outro, também tornou mais difícil encontrar formas de se diferenciar em um ambiente onde todos têm acesso aos mesmos recursos.
Na avaliação de Giuliana Tranquilini, especialista em branding e reputação, essa mudança fez com que muitas empresas concentrassem seus esforços na produção de conteúdo, quando o verdadeiro diferencial continua sendo outro: a experiência que oferecem aos clientes.
“A inteligência artificial pode ajudar uma empresa a responder mais rápido, organizar melhor as ideias, entender dados, produzir conteúdo e ganhar tempo. Sem dúvida, ela traz agilidade. Mas reputação não se constrói por ser mais ágil, nem pelo conteúdo que a empresa publica. Ela se constrói na experiência que a empresa entrega, repetidamente, ao longo do tempo.”
Para a especialista, a facilidade para comunicar uma marca acabou criando a falsa impressão de que visibilidade é suficiente para fortalecer um negócio. No entanto, ela explica que reputação não nasce da quantidade de publicações nem da adoção das ferramentas mais recentes, mas da capacidade de manter uma relação consistente com clientes, parceiros e colaboradores ao longo do tempo.
Esse processo, segundo Giuliana, costuma ser percebido principalmente quando a empresa enfrenta situações que colocam sua credibilidade em jogo. É nesses momentos que o consumidor avalia se aquilo que foi prometido corresponde, de fato, à experiência entregue.
“Um atraso na entrega, uma reclamação, uma cobrança errada ou um serviço que não correspondeu ao que foi prometido: é nesses momentos que o cliente entende, de verdade, com que empresa está lidando. Porque, no fim, ninguém lembra apenas do que uma marca disse. Lembra de como foi tratado quando precisou dela e de quanto aquela empresa foi coerente entre o que prometia e o que fez.”
A especialista defende que esse cenário exige uma mudança de perspectiva. Em vez de enxergar a inteligência artificial como responsável por criar vantagem competitiva, ela acredita que a tecnologia deve ser utilizada para otimizar tarefas operacionais, liberando tempo para que empresas fortaleçam aspectos que ainda dependem de decisões humanas, como atendimento, relacionamento e construção de confiança.
“A IA pode deixar a comunicação mais rápida e mais eficiente. Mas não substitui o critério de quem toma decisões, nem o compromisso da empresa com a relação que constrói. Quando muitas empresas tiverem acesso às mesmas ferramentas, o diferencial estará em usar essa eficiência para melhorar a experiência do cliente, sem transformar a relação em algo automático e distante.”
Essa lógica também influencia a forma como pequenos negócios devem construir suas marcas. Embora seja comum associar posicionamento a campanhas publicitárias, identidade visual ou presença nas redes sociais, Giuliana afirma que esses elementos só geram resultados quando refletem uma estratégia clara sobre o propósito da empresa e o público que ela pretende alcançar.
Na prática, explica a especialista, muitas empresas investem primeiro na comunicação e apenas depois tentam descobrir como desejam ser percebidas pelo mercado. Esse movimento, segundo ela, costuma dificultar a diferenciação e tornar a marca mais vulnerável à concorrência.
“Eu começaria pelo que não exige investimento financeiro: escuta, clareza e consistência. Antes de pensar em logo novo, campanha ou redes sociais, o empreendedor precisa entender qual problema a sua empresa resolve e por que o cliente escolheria aquela solução.”
Além disso, Giuliana observa que outro comportamento recorrente é a tentativa de atender diferentes perfis de consumidores ao mesmo tempo. Embora essa estratégia pareça ampliar as oportunidades de negócio, ela acredita que, na prática, a falta de foco dificulta a construção de uma identidade forte e reduz a percepção de valor da empresa.
“Muitas micro e pequenas empresas querem atender muitos públicos e resolver muitos problemas porque têm medo de perder oportunidades. Mas, principalmente no início, tentar ser tudo para todos costuma enfraquecer a percepção de valor.”
O avanço da inteligência artificial também alterou a forma como empresas e profissionais produzem conteúdo para as redes sociais. Se antes a dificuldade era manter uma frequência de publicações, hoje o desafio passou a ser outro: construir uma identidade reconhecível em meio a um volume cada vez maior de informações.
Para Giuliana, a facilidade oferecida pelas novas ferramentas acabou tornando a comunicação mais parecida. Textos, formatos e até argumentos passaram a ser reproduzidos em larga escala, o que reduz o potencial de diferenciação das marcas quando não existe uma estratégia bem definida por trás da produção de conteúdo.
“A inteligência artificial facilitou muito a produção de conteúdo. Isso é positivo, mas também fez com que muitas empresas começassem a falar de um jeito parecido, usando os mesmos formatos, os mesmos temas e até as mesmas frases.”
Na avaliação da especialista, essa mudança exige que empreendedores deixem de enxergar as redes sociais apenas como um espaço para divulgação e passem a utilizá-las como uma ferramenta para reforçar aquilo que desejam representar no mercado. Mais do que acompanhar tendências ou publicar diariamente, o conteúdo precisa refletir conhecimento, repertório e uma visão consistente sobre determinado assunto.
É justamente por isso que Giuliana acredita que o posicionamento deve ser definido antes da comunicação. Em sua metodologia, o primeiro passo é compreender a história, os valores e as características que tornam cada profissional ou empresa únicos. Só depois essa identidade é traduzida em estratégias de comunicação.
“Pelo que ele quer ser lembrado? Que marca quer deixar no mercado? Qual problema quer que as pessoas associem ao seu nome? Que tipo de conversa ele tem experiência, repertório e autoridade para conduzir?”
Segundo ela, quando existe essa clareza, o conteúdo deixa de cumprir apenas a função de gerar alcance e passa a fortalecer, aos poucos, a reputação construída diante do público.
“Na prática, isso significa que o conteúdo não pode nascer apenas da pergunta ‘o que eu posto hoje?’. Ele precisa partir de uma intenção maior: o que eu quero que as pessoas entendam sobre mim, sobre meu negócio e sobre a forma como eu resolvo determinado problema?”
Essa construção também influencia diretamente os resultados de um negócio. Para Giuliana, reputação não é um conceito abstrato nem um benefício restrito às grandes empresas. Ela impacta a forma como clientes tomam decisões, determina o nível de confiança depositado em uma marca e pode facilitar desde novas vendas até oportunidades de parceria.
Quando uma empresa desenvolve uma imagem consistente ao longo do tempo, o relacionamento com o consumidor deixa de estar baseado apenas em preço. A percepção de valor passa a considerar outros fatores, como credibilidade, histórico, qualidade da entrega e segurança na tomada de decisão.
“Quando uma empresa constrói uma boa reputação, ela deixa de ser apenas mais uma opção. Ela passa a ser lembrada, indicada e considerada com mais confiança. Isso impacta as vendas porque o cliente já chega com uma percepção de valor maior. A conversa não começa apenas pelo preço. Muitas vezes, ele já ouviu falar bem, recebeu uma indicação ou viu alguém ter uma boa experiência com aquela empresa.”
O mesmo acontece nas relações entre empresas. Em um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, a confiança tornou-se um critério importante para o desenvolvimento de projetos, negociações e alianças estratégicas.
“Empresas e profissionais se aproximam quando percebem consistência, seriedade e confiança no que está sendo entregue. Ninguém quer associar sua marca a um negócio que promete uma coisa e faz outra.”
Para a especialista, essa percepção não depende apenas da empresa, mas também das pessoas que estão à frente dela. Especialmente em pequenos e médios negócios, o fundador costuma ser o principal representante da marca e influencia diretamente a forma como ela é vista pelo mercado.
“Muitos fundadores investem no produto, na operação, no comercial e na comunicação da empresa, mas deixam de lado algo que pode gerar muito valor: a percepção que o mercado constrói sobre quem está à frente dela.”
Segundo Giuliana, fortalecer a marca pessoal não significa transformar o empreendedor no centro das atenções, mas utilizar sua credibilidade para ampliar a confiança no negócio como um todo.
“Não se trata de colocar o fundador acima da marca. Trata-se de usar o capital de confiança que existe naquela pessoa para ampliar a força do negócio.”
Em um cenário em que a tecnologia continua evoluindo e torna processos cada vez mais acessíveis, Giuliana acredita que o desafio das empresas será investir justamente naquilo que não pode ser automatizado: relações de confiança, consistência nas entregas e uma identidade capaz de permanecer relevante mesmo quando as ferramentas se tornam iguais para todos.
“Uma marca pessoal bem construída pode atrair clientes, abrir portas para parcerias, facilitar negociações, aproximar talentos e dar mais valor percebido ao que a empresa oferece. Especialmente em mercados em que produtos e serviços começam a se parecer. Por isso, eu não vejo a marca do empreendedor como algo paralelo à empresa. Vejo como um ativo que pode potencializar o negócio, desde que exista intenção, posicionamento e coerência entre a pessoa e a marca que ela lidera.”
