Um em cada três candidatos mentem em entrevistas de emprego, revela pesquisa

A inteligência artificial acelera contratações, mas também sofistica fraudes de identidade; checagem de antecedentes busca nivelar cenário

A crescente complexidade do mercado de trabalho brasileiro impõe às grandes organizações um duplo desafio: atrair talentos qualificados em um ambiente de escassez e, ao mesmo tempo, garantir que os candidatos realmente tenham a experiência e aptidão que dizem ter. Segundo uma pesquisa inédita da HireRight, líder global em soluções de verificação de antecedentes e histórico conduzida em parceria com a YouGov, empresa de pesquisa de mercado e análise de dados, um em cada três candidatos mente em entrevistas de emprego. O dado, extraído de levantamento com decisores de empresas com mais de 500 funcionários, expõe a fragilidade de processos baseados exclusivamente em impressões subjetivas ou na análise superficial de currículos.

A falsificação de identidade, em particular, deixou de ser um incidente marginal para se tornar uma ocorrência frequente. Segundo a pesquisa da HireRight, 37% das grandes organizações brasileiras identificaram fraudes de identidade no último ano. O dado mais preocupante, contudo, é a temporalidade da descoberta: em 19% dos casos, a fraude foi detectada ainda na fase de recrutamento; em 22%, porém, só veio à tona após a contratação, quando o profissional já estava em atividade, integrado a equipes e, em muitos casos, com acesso a sistemas e informações sensíveis.

Inteligência artificial: um faca de dois gumes

Se, por um lado, 33% das empresas já utilizam IA na triagem de currículos e na seleção de candidatos, buscando ganho de escala e eficiência, por outro, os próprios candidatos empregam a mesma tecnologia para sofisticar falsificações. Documentos adulterados com ferramentas de edição baseadas em IA, históricos profissionais inventados por chatbots e identidades sintéticas tornam mais difícil a distinção entre o verdadeiro e o falso. A pesquisa, contudo, revela um otimismo de 85% dos respondentes que afirmam confiar na capacidade de identificar candidaturas geradas ou assistidas por IA — uma percepção que pode contrastar com a sofisticação crescente das fraudes.

A tensão entre a urgência por contratações e a elevação dos riscos está pressionando as empresas a repensarem suas práticas. Encontrar candidatos adequadamente qualificados é apontado por 45% dos respondentes como o principal desafio de aquisição de talentos para 2026. Em 2025, a dificuldade prática mais comum foi encontrar profissionais a uma distância viável de deslocamento dos escritórios, citada por 41% das organizações. Some-se a isso a rotatividade acima do esperado (29%), equipes de RH com falta de pessoal (27%) e o aumento do custo por contratação (26%). 

Nesse ambiente de pressão, o risco de uma má contratação vai além do operacional, afetando o financeiro e reputacional: 48% das organizações citam como preocupação central o comportamento desalinhado aos valores corporativos, e 32% apontam o custo direto de uma contratação equivocada.

A resposta a esse dilema não pode ser apenas acelerar o fechamento de vagas. Pelo contrário, a pesquisa indica que a checagem de antecedentes se torna uma camada de proteção que garante que a velocidade na contratação não comprometa a integridade. Como observa Gustavo Sengés, Country Manager da HireRight no Brasil: “a fraude de identidade está se tornando mais sofisticada, e documentos falsificados com o uso de IA, mais frequentes. Com riscos em constante evolução, a verificação criteriosa de cada candidato se impõe como uma necessidade estruturante da governança corporativa. O dado de que um em cada três candidatos mente não é uma estatística abstrata: é o retrato de um ambiente no qual a confiança, para ser exercida, precisa primeiro ser verificada”, concluí.