Chef mineira Loh Fernandes apresenta a tradição com refinamento: quando a memória vira alta cozinha

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“Eu sempre enxerguei a cozinha como um lugar de expressão.”

Para Loh Fernandes, cozinhar nunca foi apenas executar receitas. É traduzir cuidado em sabor, transformar sentimento em experiência e criar conexão real entre pessoas.

A história dela com a comida começou cedo. Ainda criança, subia em um banquinho para alcançar a pia e o fogão, porque a vontade de participar era maior do que a altura. Na roça do pai, existia um fogão a lenha improvisado que ela chama de “meu” e do irmão. “Era simples, mas para mim era o início de tudo”, conta.

Foi ali que Loh começou a preparar seus primeiros “petiscos” para os adultos acompanharem a cerveja. Ela lembra do prazer de ver as pessoas reunidas, rindo, conversando e provando algo feito por ela. Mesmo pequena, já entendia que comida não era só alimento: era encontro. “Eu cresci amando distribuir amor através da comida”, diz.

Dentro de casa, esse olhar se aprofundou observando a mãe e a avó. Loh descreve um aprendizado de gestos e tempo: temperos colocados com calma, panela mexida com paciência, cuidado como ingrediente principal. “A minha avó fazia um arroz simples com chuchu e jiló que, para mim, era a coisa mais gostosa do mundo”, relembra. E explica o que virou fundamento da sua cozinha: “Não era sobre sofisticação ou ingredientes caros. Era sobre amor. O segredo nunca esteve na complexidade, mas na intenção.”

O que era essência virou assinatura profissional.

Com o tempo, a paixão amadureceu. Loh sempre cozinhou para família, amigos e encontros, como uma forma natural de cuidar. Até que, em janeiro de 2025, decidiu profissionalizar aquilo que sempre foi essência. Passou a atuar como personal chef e iniciou sua formação em Gastronomia para unir técnica à experiência de vida. “Para mim, era importante transformar talento e sentimento em conhecimento estruturado, elevando ainda mais a qualidade do que eu entrego”, afirma.

O projeto nasce de uma necessidade que ela enxerga como urgente: aproximar as pessoas da comida de verdade, feita com intenção, técnica e alma. E Loh faz questão de diferenciar prato de experiência. “Eu não trabalho apenas com pratos. Eu trabalho com experiências.” Cada cardápio que cria carrega identidade, estratégia e afeto.

Ser personal chef, para ela, é ir além do gosto. “É personalizar o alimento para a vida da pessoa. Não é só sobre o que ela come, mas sobre como ela vive, como ela se sente e o que quer construir através da alimentação.” Em uma frase, define seu estilo: “Eu acredito em uma cozinha sofisticada, mas acolhedora. Técnica, mas emocional. Elegante, mas com verdade.”

Minas, memória e reconhecimento

Quando Loh fala de identidade, Minas Gerais aparece como raiz afetiva e cultural. Ela celebra o reconhecimento internacional e diz sentir orgulho de ver a culinária mineira citada em rankings globais. Um material institucional da Embratur sobre o TasteAtlas 2024 menciona Minas Gerais entre as regiões gastronômicas destacadas na lista, junto de outros recortes brasileiros.

Para Loh, a cozinha mineira ensina que o essencial importa. “Um feijão bem temperado, um frango com quiabo, um pão de queijo saindo do forno ou até um arroz com chuchu e jiló podem ser experiências extraordinárias quando feitos com verdade.” E ela reforça sua visão de sofisticação: “Eu não acredito que sofisticação esteja no preço. Ela está no cuidado, na escolha do ingrediente, na execução e na intenção.”

Ela amplia a lente para o Brasil e resume o que vê como potência nacional: “A força da culinária mineira e da brasileira como um todo está na diversidade e na mistura de influências indígenas, africanas e europeias.” E conclui com uma imagem que resume sua proposta: “A comida brasileira não é só saborosa. Ela abraça.”

O prato que traduz sua cozinha

Se existe um prato que representa Loh hoje, ele tem nome e simbolismo. “Um dos pratos que mais representam minha identidade hoje é o risoto de cabotiá com ossobuco.” A combinação, segundo ela, traduz exatamente o que acredita: raiz e técnica caminhando juntas.

“O ossobuco é um corte que pede tempo. Ele me lembra as panelas da minha infância, fogo baixo, comida feita sem pressa.” Já a cabotiá reforça a conexão com a terra e com a lógica mineira de valorizar ingredientes simples, mas cheios de personalidade. O risoto entra como disciplina e precisão: “Ele exige controle de temperatura e atenção constante. O risoto é técnica. Ele não permite distração.”

No final, Loh faz um gesto autoral que amarra tudo: incorporar o tutano do ossobuco ao risoto. “Ele traz uma cremosidade natural e uma profundidade de sabor incrível.” Para ela, é a prova de que tradição e refinamento não se anulam. “Esse prato mostra que é possível honrar nossas raízes e, ao mesmo tempo, apresentar a cozinha mineira com elegância.”

E, no fundo, a entrevista inteira volta ao ponto de partida: a cozinha como linguagem. “Para mim, cozinhar é um ato de amor estratégico. É cultura, é negócio e é legado.”