Caso Orelha reacende debate: neurocientista analisa o papel dos pais e cobra psicoeducação parental
Especialista consultada: Edilaine Francescato, neurocientista e especialista em comportamento humano
Dois casos recentes mobilizaram o país: a morte brutal do cachorro Orelha, atribuída a jovens, e a tragédia de um pai que matou os próprios filhos. Para a neurocientista Edilaine Francescato, apesar de contextos distintos, os episódios expõem a mesma urgência: a falta de preparo emocional de adultos que educam, supervisionam e formam crianças e adolescentes.
Edilaine defende que a crueldade raramente surge “do nada”. “A crueldade não nasce no ato. Ela é construída em micro permissões”, afirma. Na prática, isso pode aparecer na ausência de limites, na banalização do sofrimento, na falta de supervisão e na terceirização da educação emocional para a escola, para a internet ou para “o mundo”. Segundo ela, quando a sociedade reage apenas ao choque do desfecho, perde de vista o que veio antes: sinais, comportamentos e alertas que costumam ser minimizados, justificados ou ignorados por adultos ao redor.
Ao analisar o segundo caso, Edilaine ressalta que compreender o processo não é relativizar responsabilidade. É reconhecer que tragédias familiares frequentemente envolvem escaladas de desregulação emocional, sofrimento psíquico e saúde mental negligenciada. “Um pai que mata os próprios filhos não acorda homicida. Em muitos casos, há um histórico de sinais ignorados, sofrimento psíquico e ausência de suporte”, diz. Para ela, a pergunta que deveria orientar o debate público é simples e incômoda: quem ensinou esse adulto a lidar com frustração, rejeição, perda e raiva? Ou ele foi criado num ambiente em que emoções são tratadas como fraqueza e a ajuda nunca chega?
A especialista chama esse cenário de “falência da alfabetização emocional”. Vivemos, segundo ela, uma geração hiperconectada, mas com baixa capacidade de regular emoções, tolerar frustrações, responder por impactos e conter impulsos. E o problema se agrava porque pais não recebem formação para ensinar exatamente isso. “O mais grave é que não ensinamos pais a ensinar”, pontua. Edilaine também critica a romantização da parentalidade, baseada na crença de que instinto e amor resolvem tudo. “Parentalidade é competência desenvolvida. É habilidade aprendida. É treinamento contínuo”, afirma.Na visão da neurocientista, a saída passa por psicoeducação parental como prioridade social, e não como julgamento moral. Psicoeducar, explica, significa oferecer ferramentas: orientar pais a reconhecer sinais de risco, impor limites sem violência, construir vínculo seguro, buscar ajuda especializada no tempo certo e entender quando o próprio adulto precisa de acompanhamento. “Enquanto reagirmos apenas ao ato final, estaremos sempre atrasados. A prevenção começa muito antes”, resume. E conclui com a provocação que atravessa os dois casos: em que momento deixamos de preparar os adultos para formar crianças emocionalmente saudáveis?